O VELHO HIPPIE E A MOTO.

Por Cimberley Cáspio

De madrugada,desci a garagem,liguei a Harley Davidson ,olhei pela última vez para trás,me despedi dos meus amigos que ficaram e já não mais existem, e com lágrimas nos olhos iniciei uma viagem sem destino para o norte.

Em minha cabeça,um filme do passado ia desenrolando-,a saudade dos amigos,da nossa banda de rock,dos bailes-,o vento rasgando ao lado do meu corpo enquanto chorava torrencialmente.

A noite cobria a estrada e só via faróis que passavam por mim e me perguntava: por quê me deixaram sozinho? Por quê foram embora? Por quê as canções que tocávamos como creedence,marmalade,the mamas e the papas,slade-, não se compõem mais? Numa curva notei o dia amanhecendo,a friagem forçava passagem em meu casaco, e como um dos últimos dinossauros do rock,seguia em frente…Talvez na direção do cometa da minha extinção.

De repente olhei para o lado e um grande trem me acompanhava; o sol ainda não tinha nascido e ouvia creedence, enquanto os primeiros raios de sol iluminavam o topo das montanhas. Só à natureza ,o asfalto e eu, e o trem tomou o rumo oeste e desapareceu.

Já em outro estado, resolvi parar na primeira cidadezinha pra tomar um pingado e um pão na chapa. Desligo a minha moto,desligo o som,entro no bar e todos me olham com curiosidade, e talvez perguntando entre si,por quê o tamanho do meu cabelo? Da minha barba? E como iriam entender se eu lhes respondesse que era um rockeiro,um hippie…?Pensava comigo. Não,não iriam entender,pois nós artistas éramos vistos como vagabundos…Mas tudo bem.Sem me importar pros olhares curiosos,pedi então um pão na chapa e um pingado,sendo gentilmente servido.

Depois do café já estou na estrada ,agora ouvindo slade-,já dentro do estado de Pernambuco,um outro hippie se aproxima e começamos a trocar ideia,quando ele me apresenta uma lindíssima e bela mulher,dizendo que era sua irmã. Ela então me leva em sua casa e me mostra um lindo piano e me pede pra tocar.Então executo várias músicas que tocávamos na banda,inclusive inéditas,compostas por mim.

A verdade é que nos apaixonamos ,a pus na garupa e seguimos até Fortaleza.Vivemos 26 anos de intenso amor,até que o câncer a levou e agora continuo chorando. Perdi meus amigos,desapareceram as lindas canções,perdi quem mais amei-, não consigo mais tocar,não consigo mais sorrir,o sol não me dá mais calor-, olho pela última vez pra minha casa,as lágrimas descem,fecho a porta,monto na moto,pego a BR e continuo sem destino. Muito prazer, sou Cimberley Cáspio.

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