EBOLA : IMIGRANTES CONTINUAM CHEGANDO AO ACRE SEM SEREM IMPORTUNADOS.

POR FÁBIO GRELLET(Estadão) E  YURI MARCE DO G1 AC– REPRODUZIDO DO ESTADÃO E G1- EDITADO  P//CIMBERLEY CÁSPIO

A Academia Nacional de Medicina divulgou, nota em que faz críticas às providências tomadas pelo Ministério da Saúde para controlar a entrada no Brasil de pessoas infectadas pelo vírus ebola. O texto é assinado por quatro médicos, que se manifestam em nome da entidade: José Rodrigues Coura, José Carlos do Valle, Gerson Canedo de Magalhães e Celso Ramos Filho.

“O grande risco para o Brasil está nos acessos por terra. No sul, africanos de diferentes países – inclusive aqueles com epidemia de ebola – continuam chegando sem o menor controle. Em Caxias do Sul (RS) existe uma associação específica destinada ao acolhimento social e que providencia empregos para esses imigrantes”, diz o texto.
No documento, a Academia Nacional de Medicina sustenta considerar “mais grave ainda” a “entrada dos oriundos do oeste da África, principalmente do Senegal e Nigéria (poucos de Serra Leoa), através de rota por avião Dakar-Madri-Equador, que entram neste país (Equador) sem necessidade de visto”.
“Segundo a Polícia Federal brasileira, os imigrantes mais pobres são cooptados por ”coiotes”, que lhes acenam com possibilidade de emprego no Brasil (Acre). Utilizando táxis, viajam até o Peru ou a Bolívia e daí, à noite, chegam a Rio Branco sem serem importunados. (…) Isto já foi denunciado e as providências efetivas não foram tomadas. É a tragédia anunciada”, denuncia a entidade.
Para a Academia Nacional de Medicina, se a doença ingressar na Amazônia “certamente será de difícil controle. Urge das autoridades providências em todos os sentidos: dos Ministérios da Saúde, Justiça – intensificando a vigilância por terra nas fronteiras durante as 24 horas -, Relações Exteriores – maior rigor no controle de vistos e emissão de passaporte daqueles oriundos das regiões mais acometidas -, e outros mais que, a juízo do Poder Executivo, possam agir de forma integrada para conter esta temível infecção”.
O texto recomenda que o Ministério da Saúde “aconselhe as Secretarias Estaduais de Saúde a tomar providências de vigilância e atenção médica para eventuais casos da doença” e afirma que será “difícil” realizar exames laboratoriais em Belém e oferecer atendimento médico em um único hospital do Rio de Janeiro.
“A estrutura de atendimento aos doentes não pode ser concentrada, tem que haver capacidade de atendimento em todo o País”, afirma o infectologista Coura, um dos autores da nota.
Fronteiras
Em resposta, o Ministério da Saúde afirmou que é baixa a possibilidade de transmissão do vírus Ebola no Brasil, tanto por entrada em aeroportos e portos como pelas fronteiras terrestres. “Mesmo assim, o Brasil fortaleceu a preparação para a detecção e resposta às emergências de saúde pública, utilizando as mais modernas estratégias e tecnologias disponíveis e as lições aprendidas com emergências reais”, diz a pasta.
Alfândega Assis Brasil - Acre (Foto: Yuri Marcel/G1)Carros passam livremente pela fronteira entre Brasil e Peru durante a noite (Foto: Yuri Marcel/G1)

Instalada pelo governo federal na fronteira entre o município acreano de Assis Brasil e a cidade peruana de Iñapari, a alfândega entre Brasil e Peru possui, durante todo o dia, a presença de agentes da Polícia Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Receita Federal. À noite, contudo, quando os órgãos de fiscalização fecham, apenas um vigilante terceirizado pode ser visto acompanhando o movimento de entrada e saída de veículos. Moradores da região temem a exposição da fronteira à entrada de armas, entorpecentes e imigrantes ilegais, que podem trazer consigo o vírus do ebola.

Apesar do medo, o coordenador da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Acre (Sejudh), Russelino Barbosa, não acredita na possibilidade de o vírus ebola chegar ao Brasil, por meio da fronteira no Acre, em função das barreiras sanitárias existentes nos países usados como rota pelos imigrantes.

Apenas um vigia pode ser visto na alfândega de Assis Brasil durante a noite (Foto: Reprodução/TVAcre)Apenas um vigia pode ser visto na alfândega de
Assis Brasil durante a noite
(Foto: Reprodução/TVAcre)

“É lógico que nós temos preocupação com essa doença. O Ministério da Saúde diz que pelo estado do Acre, em função da distância e das barreiras sanitárias existentes nas localidades por onde eles passam, fica muito difícil a possibilidade deles chegarem aqui. Mesmo sendo por uma rota clandestina é muito difícil acontecer. Em Senegal tem uma barreira sanitária, na Espanha e em Madri tem barreira, quando eles chegam no Equador tem outra”, explica.

Ele explica que nos últimos 90 dias chegaram ao Acre apenas dois imigrantes vindos da Nigéria, país considerado livre do ebola, após 42 dias sem registrar nenhum novo caso da doença. Ele garante que apesar de, em anos antereiores, já ter tido o registro de imigrantes vindos da Guiné [um dos país mais atingidos pelo surto de ebola], este ano 90% dos que chegaram ao Acre são haitianos e os demais senegaleses e dominicanos.

Descaso na fronteira

O coordenador garante ainda que nenhum imigrante vindo de Serra Leoa e Libéria, outros dois países com surto da doença, entraram no estado este ano.

Um funcionário público brasileiro, que pede para não ser identificado por medo de represália, relata que a situação na fronteira de Assis Brasil é de abandono e descaso à noite.

“Não tem fiscalização da PF, da PM, não tem controle de imigrante. É fácil verificar, tanto na ponte da União, como na alfândega, principalmente à noite, de madrugada, o tráfego de táxis levando imigrantes e outras coisas. Ficamos preocupados, principalmente, com o ebola”, diz.

Distante 342 km da capital do Acre, Assis Brasil fica em uma região conhecida como tríplice fronteira, já que além do Peru também faz divisa com a cidade boliviana de Bolpebra. O acesso peruano a Assis Brasil é feito por meio da Ponte da Integração, inaugurada em 2006. Na alfândega, um cartaz explica que o departamento de imigração da PF no local funciona apenas entre 7h e 19h.

Durante uma noite as equipes do G1 e da TV Acre acompanharam a movimentação na alfândega. No local, apenas um vigia terceirizado fazia a segurança enquanto diversos veículos tanto do Brasil quanto do Peru cruzavam a fronteira. Sem saber que era filmado pela equipe, o homem acabou confirmando que, embora agentes ficassem no prédio, durante a noite apenas ele ficava de guarda acompanhando a movimentação na faixa de fronteira. Ele disse ainda que era instruído a acionar os agentes caso detectasse algo suspeito, mas que, até então, nunca precisou fazê-lo.

No dia seguinte, as equipes de reportagem retornaram à alfândega, para tentar obter informações com a Polícia Federal sobre a segurança na fronteira durante a noite, mas nenhum dos agentes quis dar entrevista. Eles informaram que apenas a Superintendência em Rio Branco poderia fornecê-las.

Como entram os imigrantes

O empresário peruano Hector Sernaque conta como os africanos cruzam a fronteira sem serem vistos. “Os imigrantes ilegais passam de madrugada em carros grandes que trazem cargas. Em seguida, se vão em táxis brasileiros. É uma realidade na fronteira Peru-Brasil-Bolívia. Aqui eles encontram facilidades nos três países para cruzar a fronteira”, diz.

Também sem querer se identificar, outro servidor público conta que os imigrantes ilegais chegam a Assis Brasil, vindos do Peru, em uma van. Eles desembarcam próximo à ponte da Integração, pegam um táxi e vão clandestinamente para Brasiléia.

Ele diz que teme que os imigrantes cheguem ao país trazendo ebola e diz que Assis Brasil não tem infraestrutura para lidar com a doença. “Temos medo do ebola. Se chegar numa cidade como Assis Brasil, não tem estrutura alguma”, diz.

Presidente do Sindicato dos Taxistas de Assis Brasil, Vagno Saucedo, diz que não pode afirmar que taxistas brasileiros estejam fazendo o transporte clandestino de imigrantes, mas comenta que chegou a conversar com uma equipe da Polícia Federal que atuava na alfândega para pedir mais rigor na fiscalização.

“Me afirmaram que, por causa do efetivo ser pequeno, aqui fica difícil para eles. Disseram: Nós sabemos que está acontecendo, estamos monitorando, mas é difícil para nós, mas ai daquele que for pego”, relata.

Uma média de 50 imigrantes chegam ao Acre pela fronteira todos os dias, na maioria haitianos que possuem entrada facilitada por causa da política de acolhimento adotada pelo governo brasileiro. Já pessoas vindas de outros países precisam apresentar visto para poder ingressar legalmente no país. Porém, sem ter como retornar para seus países de origem, muitos acabam entrando da mesma forma e seguem junto com os haitianos para o abrigo mantido pelo governo do Acre em Rio Branco.

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